16/05/2009

"A Castro" de António Ferreira


Interessei-me por este livro após ter visto uma representação de um excerto da peça.

António Ferreira presenteia-nos com uma história alternativa à popular, em que o sangue de Inês não fica marcado na fonte da Quinta das Lágrimas e em que não relata o coroamento de Inês depois de morta.

Achei curioso o facto de haver poucas personagens (apenas dez), de aparecerem sempre em cena em número reduzido e de pertecerem todas à Nobreza.

A personagem principal é Inês, que, mesmo não estando presente em todas as cenas, todas as personagens falam sobre ela. Toda a peça está centrada na sorte de Inês: a sua felicidade possível, o seu julgamento, a sua condenação e a sua execução.

Ao contrário de muitas outras peças, esta é simples, sem muitas peripécias e reviravoltas, sem acontecimentos paralelos à acção.

A peça acontece no mesmo lugar geral: Coimbra e os seus arredores. Os actos I, III e IV podem ser situados no Palácio de Santa Clara. O Conselho do acto II desenrola-se na Alcáçova de Coimbra. Quanto ao acto V, a existência de um mensageiro implica distância; todavia, o encontro daquele com o Infante, como provam as referências ao Mondego e aos "Montes de Coimbra", é na própria cidade.

Gostei deste livro devido ao facto de António Ferreira ter utilizado o coro como uma espécie de narrador profético que vai avisando Inês sobre o destino que a espera. De igual modo, agradou-me a rapidez com que a acção se desenrola, uma vez que, e embora sem um tempo definido, parece que se passa toda no mesmo dia.

Achei interessante a utilização acentuada de recursos estilísticos, como metáforas e personificações.

Recomendo este livro a quem goste de texto dramático ou de poesia, visto que toda a obra é lírica.

10/05/2009

"Felizmente há Luar!" de Luis de Sttau Monteiro


Fiquei interessada neste livro quando vi um excerto da peça.

Luis de Sttau Monteiro retrata a conspiração de 1817 que conduziu à execução do General Gomes Freire de Andrade. Escrito em pleno Estado Novo, Sttau Monteiro pretendeu denunciar a censura e a repressão existentes no Portugal dos anos cinquenta e sessenta, usando para isso a conspiração de um chefe militar inglês, Beresford, do Governador D. Miguel Forjaz e do Principal Sousa, numa altura em que Portugal, após as invasões francesas, se encontrava numa situação miserável. Assim, no texto dramático que li, a participação do povo é importante, pois mostra que a sociedade portuguesa estava cansada de viver na miséria e, tal como nos anos 60 esperava que o General Humberto Delgado os salvasse, em 1817 esperavam o mesmo de Gomes Freire.

Matilde de Melo representa a hipocrisia do mundo e dos interesses que se instalam em volta do poder; por outro lado, apresenta-se como mulher dedicada de Gomes Freire, que, numa situação crítica como a retratada, tem discursos tanto marcados pelo amor, como pelo ódio.

António Sousa Falcão, amigo íntimo de Matilde, sofre com ela a execução de Gomes Freire e ouve-a nos momentos em que mais precisa.

Manuel, o mais consciente dos populares, denuncia a opressão do povo.

Vicente é revelado como sarcástico, movido pelo interesse da recompensa material, despreza a sua origem e o seu passado. Este acaba por ser um delator que apenas age assim porque está revoltado com a sua condição social, e apenas desse modo pode ascender socialmente.

Em suma, Sttau Monteiro chama a atenção para a situação política do seu tempo usando, para isso, um episódio marcante da nossa história e escolhendo personagens que são recorrentes em situações políticas como as retratadas.

"O Jogo do Anjo" de Carlos Ruiz Zafón


Após ter terminado a leitura de "A Sombra do Vento", comecei à procura de outros livros deste autor. Recomendaram-me "O Jogo do Anjo", que, apesar de ter sido escrito depois de "A Sombra do Vento", passava-se antes.

Novamente, Carlos Ruiz Zafón surpreende com uma forma de escrita única, com descrições fantásticas e aventuras empolgantes. Tal como em "A Sombra do Vento", a acção ocorre à volta de um escritor "esquecido", um livro "maldito" e uma história de amor impossível. Neste livro encontramos algumas personagens que nos são familiares do anterior, como Barceló e Sempere.

Desta vez, o protagonista é David Martín, um colunista que decide seguir uma carreira de escritor. Após uma viagem até ao Cemitério dos Livros Esquecidos, David é "escolhido" por um livro, neste caso é "Lux Aeterna" de um misterioso D.M..

Aquando da misteriosa morte dos seus editores, David é contactado por Andreas Corelli, um editor com aspecto canino, desconhecido e envolto por uma aura misteriosa, que deseja um livro religioso. Ao mesmo tempo que David se envolve numa aventura a fim de desvendar o misterioso caso do tal D.M., trabalha para o livro de Corelli. E assim, David vê-se entre fugas, trabalhos de detective, homícidos bizarros, amores impossíveis e lutas intermináveis.

A história é um pouco repetitiva, mas esse facto é rapidamente esquecido pela qualidade da escrita. Os cenários e o desenrolar da história são basicamente os mesmos de "A Sombra do Vento". No entanto, recomendo o livro, mesmo a quem não tenha lido o primeiro.

"A Sombra do Vento" de Carlos Ruiz Zafón


Este foi, sem dúvida, o livro que mais gostei de ler. Uma história simplesmente emocionante, cheia de interessantes reviravoltas e momentos de suspense.

Carlos Rui Zafón escreve de uma maneira cativante, com descrições que nos conseguem levar para o local onde se desenrola a aventura. Os cenários e as personagens são-nos familiares, mas o modo como são apresentados faz-nos duvidar da "bela Barcelona". Mostrando os segredos mais escondidos e bizarros da Barcelona franquista da primeira metade do século XX e apresentando personagens reais, embora difíceis de encontrar, Zafón transporta-nos para um mundo completamente alternativo, onde um simples livro tem mais importância do que aquela que aparenta.

A história gira em torno de um jovem, Daniel Sempere, filho do dono viúvo de uma livraria. Quando Daniel já tem idade suficiente, o seu pai leva-o ao Cemitério dos Livros Esquecidos, onde o jovem deverá escolher um livro. Surpreendentemente, parece ser o livro que escolhe o jovem. "A Sombra do Vento" escrito por Julián Carax.

Ao longo da aventura, Daniel conhece muitas personagens relevantes para o decifrar do mistério que se desenvolveu em torno do livro; uma delas é Fermín Romero Torres, auto-proclamado antigo espião e preso político.

Além das cenas de fuga e de violência física, fugindo do encalce do inspector Javier Fumero e do estranho ser Laín Coubert, Daniel também se envolve em momentos amorosos e de descoberta, sempre com a ajuda de Fermín.
Recomendo vivamente este livro a quem goste de romance/policial/thriller/aventura, pois Zafón conseguiu juntar tudo em cerca de 500 páginas.
O livro é absolutamente maravilhoso. (Kirkus Reviews, EUA).

"O Mundo de Sofia" de Jostein Gaarder



Já tinha lido vários livros deste autor, como "Olá! Está aí alguém?" e "O Mistério do Jogo das Paciências".

"O Mundo de Sofia" conta-nos a história da Filosofia ao mesmo tempo que nos brinda com uma aventura intrigante, cheia de mistério e suspense.

Decidi ler este livro porque queria informar-me mais sobre a Filosofia, sem me cingir apenas ao que é leccionado na escola.

Jostein Gaarder foi capaz de escrever um livro que poderia ser classificado como maçador se não fosse pela história emocionante de Sofia, uma rapariga que está prestes a completar 15 anos quando recebe uma carta de um misterioso filósofo que lhe desperta a curiosidade pela história da Filosofia. Sofia passa, então, a aluna do filósofo Albert Knox. Albert, ao mesmo tempo que ensina Filosofia a Sofia, tenta descobrir quem está por detrás dos estranhos acontecimentos. Mais tarde vem a descobrir-se que Albert e Sofia não passam de meras personagens de um livro escrito por Albert Knag, um Major da ONU que quer dar um livro como prenda de aniversário à sua filha, Hilde Møller Knag.

A reviravolta mais interessante do livro é protagonizada por Sofia e Albert, que, após se aperceberem da trama do major, conseguem ultrapassar a realidade do autor.

Gostei deste livro, pois Jostein Gaarder consegui "juntar o útil ao agradável", ou seja, alimentar-nos a cultura geral ao mesmo tempo que seguimos uma aventura emocionante.

"Os Maias" de Eça de Queirós


Decidi ler este livro porque achei que seria um desafio. Já muitos colegas tinham comentado comigo que o livro era aborrecido e que só valia a pena perder tempo a lê-lo no 11º ano, visto que é um livro de leitura obrigatória.

Quando comecei a ler a obra, vi-me obrigada a concordar com o que me tinham dito; a primeira parte, uma exaustiva descrição do "Ramalhete", era, sem dúvida, bastante aborrecida e cansativa. Mas, após esses primeiros capítulos, começou a desenrolar-se a história em si: uma história fascinante, que retrata a vida de muitas classes sociais do século XIX.

O que mais admirei na escrita de Eça de Queirós foi a maneira como descreve as personagens, permitindo ao leitor formar uma ideia exacta do aspecto físico e das acções sociais dos descritos. Além disso, retrata o real, mas secreto, comportamento da alta sociedade, desde reuniões e pequenas conspirações nos lares dos chefes de estado até aos romances extraconjugais de carácter incestuoso.

A minha personagem favorita foi João da Ega. Na minha opinião, João da Ega era a voz da sociedade da altura, aquele que dizia o que os outros pensavam. Aliás, esta personagem levou-me a fazer alguma pesquisa sobre os poetas da época, e, com muito espanto, descobri que Ega tinha sido criado à imagem de Eça de Queirós.

A personagem principal, Carlos Eduardo da Maia, sobrevive à custa dos enredos criados pelas outras personagens e que muito contribuem para a construção da sua própria personagem.

"Os Maias" é, no fundo, um retrato social do século XIX, razão pela qual vemos desfilar as personagens-tipo envolvidas em situações que recordam ao leitor que há toda uma vivência que se esconde para lá da aparência.